A reader lives a thousand lives before he dies, said Jojen. The man who never reads lives only one. (George R. R. Martin)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Sombra do Vento


Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.
— Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel — advertiu o meu pai. — Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
— Nem sequer à mamã? — inquiri eu, a meia-voz.
O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.
— Claro que sim — respondeu, cabisbaixo. — Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo.
(…)
— Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Um homenzinho com traços de ave de rapina e cabeleira prateada abriu-nos a porta. O seu olhar aquilino poisou em mim, impenetrável.
— Bom dia, Isaac. Este é o meu filho Daniel — anunciou o meu pai. Está quase a fazer onze anos, e um dia ficará ele a tomar conta da loja. Já tem idade para conhecer este lugar.
O tal Isaac convidou-nos a entrar com um leve gesto de assentimento. Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de frescos povoados de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Seguimos o guardião através daquele corredor palaciano e chegámos a uma grande sala circular onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula retalhada por feixes de luz que pendiam lá do alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu-me, piscando-me o olho.
             — Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.


Completamente devorado!É incrível como este livro nos prende desde as primeiras páginas e nos guia numa viagem pelas ruas de Barcelona na companhia do Daniel em busca da vida de um tal Julian Carax que desapareceu na sombra do vento e de quem pouca gente ouviu falar...São estes os ingredientes que Carlos Ruíz Zafón misturou com uma escrita soberba e que fizeram deste livro aquilo que é. 
Fiquei completamente rendida, e recomendo vivamente a sua leitura! 

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